LOGINGlória tinha acabado de sair do quarto de Cláudio quando pegou o celular e ligou para Alice.A ligação foi atendida rapidamente. O tom de Glória trazia um prazer mal disfarçado:— Você se saiu muito bem. Depois de tanto tempo grudada no Augusto, finalmente serviu para alguma coisa.A voz de Alice não tinha nenhum traço de emoção. Ela respondeu, fria:— Eu acabei de pagar a dívida que eu tinha com vocês. Ele me salvou uma vez, eu salvei ele uma vez. A partir de agora, nós dois não ficamos devendo mais nada um ao outro. Faz um favor e não me liga nunca mais.Glória soltou uma risadinha e a voz dela ficou ainda mais ácida, carregada de desprezo:— Ainda bem que você tem essa noção. Eu reconheço que você é competente e ambiciosa, mas um tipo de mulher como você nunca vai estar à altura do Cláudio.Alice não teve paciência para prolongar a conversa. Ela desligou o celular na cara de Glória.Naquela noite, ela não pregou os olhos. O peito dela parecia como se estivesse pressionado por uma pe
Glória estava ao mesmo tempo furiosa e aflita, e olhava para ele com a raiva de quem se decepcionava mais uma vez:— Alice explicou tudo nos mínimos detalhes. Augusto, aquele desgraçado, quer acabar com você. Ela ainda teve o trabalho de mandar a proposta verdadeira direto para o seu e‑mail, e você tem coragem de dizer que vai para a concorrência com a proposta antiga? Você só pode estar maluco!Quando ela terminou, ela deu um passo na direção dele. A voz dela veio ainda mais pesada:— Você já não é mais criança. O mercado é campo de batalha. Disputa empresarial sempre foi jogo de vida ou morte; não existe espaço para você agir no impulso. Olha a situação em que você está e ainda quer bater boca com a Alice por orgulho? Me diz: quando é que você vai crescer de verdade? Quando é que você vai deixar eu descansar um pouco essa cabeça?Cláudio encarou Glória, completamente atônito, e perguntou, sem acreditar:— Como você sabe o que eu falei com a Alice?O olhar de Glória vacilou na mesma h
Cláudio, no meio da madrugada, estava sentado à escrivaninha, encarando o e‑mail estranho que Alice tinha acabado de mandar no computador.Alice nunca tomava a iniciativa de falar com ele. Ela nunca aceitava as investidas dele.E agora, de repente, ela mandava uma proposta de concorrência e dizia para ele usar aquele arquivo no dia seguinte. O que exatamente ela queria com isso?Cláudio franziu a testa com força, sem entender nada, e ligou para ela.O celular foi atendido rápido. Alice não perdeu tempo com rodeios, foi direta ao ponto:— Você presta atenção no que eu vou falar agora. Você troca imediatamente a proposta que você vai usar amanhã na concorrência pela que eu acabei de mandar. Presta atenção: você precisa usar essa que eu acabei de enviar.Cláudio fez uma pausa e respondeu:— Eu não estou entendendo o que você quer dizer. A proposta de amanhã já está fechada com a minha equipe faz tempo. De onde saiu essa sua versão?A voz de Alice vinha carregada de urgência quando ela exp
— Está tudo pronto? Cláudio já se divertiu bastante sentado na cadeira de presidente. Amanhã, naquela concorrência, ele não só vai perder, como não vai ter mais como se levantar.O assistente Felipe respondeu em voz baixa:— O senhor pode ficar tranquilo. O Cláudio ainda está completamente no escuro. Aquele idiota não desconfia nem um pouco que o principal técnico da equipe dele já é nosso. A proposta verdadeira é a que está no seu computador. Amanhã, a proposta que ele vai levar vai ser idêntica à do nosso concorrente direto. Quando ele for acusado de plágio e de roubo de segredo comercial, ele não sai da cadeia em menos de dez anos.Alice sentiu o corpo gelar por inteiro. Um suor frio subiu pelas costas de uma vez. Ela prendeu a respiração sem perceber, sem coragem nem de respirar fundo, e continuou ouvindo a conversa lá dentro.Não era à toa que, à tarde, Felipe tinha entrado e saído do escritório de Augusto tantas vezes, daquele jeito furtivo. Eles estavam armando exatamente isso.
Um mês depois, sob pressão da opinião pública, saiu a sentença do tribunal.O crime de maus-tratos contra menor cometido por Melissa foi confirmado. Somando as penas pelos diversos delitos, ela foi condenada a cinco anos.A família Botelho foi atingida em cheio pelo escândalo. Muitos parceiros comerciais cancelaram os contratos, e o grupo ficou por um fio.No processo pela guarda de Rafaela, Jacarias, como pai biológico dela, conseguiu oficialmente a guarda. Mas ele não levou Rafaela com ele.E a mansão da família Lins também foi vendida. O comprador não pediu nem um centavo de desconto.Porque, por trás da compra, estava eu. Aquela casa reunia todo o esforço de Sérgio, carregava lembranças demais da nossa família.Mas Maria e Jacarias não faziam ideia disso. Eles pegaram o dinheiro da venda e, antes de voltarem para a cidade natal, marcaram de me ver.Jacarias disse:— Eu vou deixar a Rafaela aos seus cuidados. Eu sei que, perto de vocês, ela vai ter a melhor vida que pode ter. Mas eu
Maria fechou a porta e me encarou fundo antes de dizer:— Eu coloquei esta casa na imobiliária para vender. Assim que ela for vendida, eu volto para a nossa terra.Eu fiquei surpresa. Eu não esperava que ela tomasse uma decisão dessas.Maria forçou um sorriso, mas o tom da voz dela carregava uma tristeza cansada:— Eu e o seu pai saímos da nossa terra e lutamos a vida inteira até chegar em Cidade H. Quando Jacarias nasceu, ele ainda ficou lá na cidade pequena. Quando nós adotamos você, foi justamente na época em que a família Lins vivia o auge em Cidade H. E eu só agora percebo que toda essa prosperidade, toda essa grandeza… não passou de fumaça no ar.Ela fez uma pausa e completou:— Eu vou levar o Jacarias comigo. Em cidade pequena a vida pesa menos. Eu só quero que, daqui para frente, ele crie juízo, trabalhe direitinho e não faça a Rafaela passar vergonha.Eu não tentei impedir. Eu fiquei em silêncio, sem saber o que responder.Maria abriu o guarda-roupa e tirou de lá uma caixa de






