Cresci ouvindo histórias sobre o atum nos Açores, e é fascinante como esse peixe está entrelaçado com a identidade local. Desde as tradicionais canções dos pescadores até os festivais gastronômicos, o atum não é só alimento—é um símbolo de resistência e comunidade. As técnicas de pesca, passadas de geração em geração, refletem um diáculo entre o homem e o oceano que moldou a economia e o cotidiano das ilhas.
Visitar uma fábrica de conservas em São Miguel me fez perceber o orgulho por trás de cada lata: há arte em transformar algo simples em patrimônio. E não é só nostalgia—o atum ainda hoje une famílias durante as 'sessões de desmancha', onde todos colaboram. Essa relação vai além do prato; é memória afetiva que resiste ao tempo.
Lembro de uma lenda fascinante que ouvi numa viagem ao Japão: o atum é visto como um mensageiro dos deuses em algumas histórias antigas. Em 'Kojiki', um dos textos mitológicos mais antigos, há uma menção sutil a criaturas marinhas que carregam orações dos pescadores até o mundo divino.
Na região de Wakayama, pescadores contam que capturar um atum gigante era sinal de boa sorte, quase como um presente do próprio Ryūjin, o deus dragão do mar. Há algo poético na ideia de um peixe tão comum hoje já ter sido reverenciado como um elo entre humanos e o sobrenatural.
Puxando da memória algumas histórias que ouvi ao longo dos anos, não lembro de nenhum conto popular brasileiro que tenha o atum como protagonista ou figura central. Nossa cultura é mais rica em lendas envolvendo animais da floresta, como o curupira ou o boto cor-de-rosa.
Mas pensando bem, seria interessante se existisse uma lenda costeira sobre um atum gigante que guia pescadores perdidos de volta para a terra. Acho que o atum acaba ficando de fora porque não é um peixe tão presente no imaginário das regiões interioranas, onde muitas das nossas lendas nasceram. Talvez em comunidades litorâneas específicas existam narrativas menos conhecidas sobre ele.