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Capítulo 3

Author: Finn
Achei que desabaria assim que deixasse os portões para trás. Que as lágrimas iriam brotar violentas, intermináveis, e me arrastar junto com elas.

Mas não foi isso que aconteceu.

Eu apenas me sentia vazia, como se alguém enfiasse mãos enluvadas no meu peito e arrancasse tudo de dentro de mim — coração, pulmões, ar —, deixando apenas uma cavidade congelada por onde o vento soprava livremente.

Meu celular vibrou.

Era uma mensagem de Marco, enviada com a precisão fria de um memorando corporativo:

[Retirei o anúncio do nosso noivado. O motivo oficial são diferenças irreconciliáveis. Com efeito imediato, não temos mais qualquer vínculo. Todos os bens compartilhados ficam congelados até segunda ordem.]

Antes que eu conseguisse processar a mensagem, outra notificação iluminou a tela: o canal criptografado da família, reservado quase sempre para alertas de segurança de alto nível.

O comunicado do meu pai dizia:

[Minha filha Gemma foi repudiada por tentativa de extorsão e instabilidade mental. A partir deste momento, ela está desvinculada da família Blackwell. Todos os atos dela daqui em diante serão de responsabilidade exclusiva dela, e seu acesso a todas as propriedades e meios de comunicação da família está proibido.]

Então, bloquearam meu acesso. O canal se fechou, o ícone do aplicativo ficou cinza e morreu na minha tela.

Tão eficiente. Tão definitivo.

Apoiei-me contra uma árvore à beira da estrada, com a chuva colando meu cabelo no rosto, e fiquei encarando as letras brancas e frias que brilhavam na escuridão.

Eles estavam destruindo meu coração.

Foi então que as lágrimas vieram. Não em soluços, mas como uma corrente quente e silenciosa, embaçando a tela até que eu já não conseguisse distinguir as palavras.

Se eu realmente fosse a pessoa agonizando de leucemia naquela noite, morreria de desespero muito antes que a doença me levasse.

"Vincenzo. Marco... Vocês são cruéis demais."

Limpei o rosto com a manga. Chamei um táxi e voltei para meu apartamento: o pequeno estúdio que eu mantinha na cidade, o único lugar inteiramente meu, pago com o dinheiro que ganhei fazendo turnos dobrados no hospital.

Mantive o celular desligado por três dias, fechei bem as cortinas e fiquei deitada no escuro, como um animal ferido dentro da própria toca.

Revisitei os últimos vinte anos.

Pensei em como me mandaram para um internato no sul quando eu tinha quatro anos. Em como me visitavam uma vez por ano, no Natal, e passavam o tempo inteiro ao telefone com Bianca.

Pensei em como Bianca absorvia cada gota do amor deles como se fosse luz do sol, enquanto eu ficava nas sombras, tentando não chamar atenção.

Pensei em como Marco se ajoelhou nesta mesma sala seis meses antes, segurou minha mão e jurou me proteger até a morte. Ainda assim, na hora da verdade, escolheu a herança dela acima da vida do nosso filho.

Perguntei a mim mesma, repetidas vezes: por quê?

Eu era médica. Salvei desconhecidos na emergência, segurei a mão de pacientes à beira da morte, resgatei pessoas do limite do abismo. Mas não conseguia curar minha própria família. Não conseguia curar meu próprio coração.

Na quarta manhã, finalmente me arrastei até o trabalho e liguei o celular.

A tela explodiu com chamadas perdidas e notificações em vermelho.

Um instinto — ou talvez uma premonição — me levou a abrir a rede privada da família. O canal do qual agora me expulsaram, mas que eu ainda conseguia visualizar como uma espectadora espiando através de um vidro quebrado.

O mural de Bianca sempre foi ativo. Ela publicava sem parar: viagens de iate por Mônaco, bolsas de edição limitada, jantares de família em que se sentava à direita do meu pai, sobremesas que Marco mandava trazer de Paris exclusivamente para ela.

O mundo dela sempre foi tão brilhante. Tão dourado, tão cheio de amor. Mas naquele dia, o mural estava em silêncio, todas as publicações pararam. No mesmo dia em que ela foi fazer o exame médico.
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