Share

Capítulo 3

Author: Anna Smith
Meu filho não conseguia entender o que havia acontecido naquele dia.

Ele apenas chorava em silêncio em meus braços.

Com uma voz pequena e trêmula, ele perguntou se o pai não o queria mais e se eu era a única pessoa no mundo que ainda o amava.

Eu o abracei com força.

— Não. — Sussurrei. — Você, meu pequeno herói, é amado por muitas pessoas.

— Seus avós sentem muito a nossa falta. Eles estão esperando para te conhecer. Você gostaria de ir embora com a mamãe para vê-los?

Ele hesitou.

Seus dedos apertaram com força o carrinho de brinquedo que Gabriel lhe dera no aniversário do ano anterior.

— Mas… eu não quero deixar o papai.

Engoli as lágrimas que queimavam na minha garganta e falei com suavidade:

— Seu pai e sua avó não querem que fiquemos aqui. Você quer continuar chamando ele de "papai" quando ele quer que você o chame de "tio" pelo resto da vida?

Ele congelou.

Lentamente, deixou o brinquedo de lado, lágrimas escorrendo enquanto olhava para mim e suplicava:

— …Então posso ficar só até esse aniversário acabar? Só este. Quero uma última lembrança com ele.

Ele se recusava a chamar Gabriel de "tio".

Enxuguei minhas lágrimas em silêncio e beijei o topo da cabeça dele.

— Claro. — Respondi. — Qualquer coisa que você quiser, meu amor.

Mas, dois dias depois, no aniversário dele, Gabriel nunca apareceu.

— Ele prometeu que viria para casa hoje. — Falei com firmeza ao telefone.

— É o aniversário do nosso filho. Onde você está?

Eu conseguia suportar minha própria decepção.

Mas não conseguia suportar ver a última esperança do meu filho se despedaçar.

Gabriel não respondeu.

A ligação foi encerrada.

— Ele não vai voltar… vai? — Meu filho perguntou baixinho.

Ele olhou para o bolo à sua frente e forçou um pequeno sorriso, como se estivesse tentando consolar a si mesmo.

— Tudo bem, mamãe. O tio deve estar muito ocupado. Você pode comemorar comigo no lugar dele.

Foi a primeira vez que ele chamou Gabriel de tio. Parecia ter aceitado.

Mas o jeito como seus lábios tremiam enquanto tentava sorrir partiu meu coração.

Uma onda de raiva tomou conta de mim quando peguei o telefone novamente.

Então chegou uma mensagem de Gabriel, pedindo que fôssemos para casa.

— Mamãe! — Meu filho exclamou. — O papai lembrou do meu aniversário!

Os olhos dele brilharam de esperança.

— Mamãe, ele lembrou! Vamos! Ele deve ter preparado um monte de presentes!

Depois de receber a confirmação de que Gabriel estava organizando uma comemoração, meu filho me puxou em direção à propriedade do Clã, praticamente saltitando de empolgação.

Mas no instante em que entrei e vi o salão cheio de jasmim-da-noite e convidados vestidos formalmente, meu coração afundou.

Aquilo não parecia uma festa de aniversário.

Parecia…

Antes que eu pudesse terminar o pensamento, meu filho correu até Gabriel, que estava ao lado do bolo.

— Papai! — Ele gritou, jogando-se nos braços dele.

— Você estava me esperando para cortar o bolo?

Gabriel ficou tenso.

Quando nos viu, o choque atravessou seu rosto.

— Por que vocês estão aqui?

Minha inquietação aumentou quando notei Chloe ao lado dele, vestida com trajes cerimoniais.

Os convidados começaram a cochichar.

— Hoje não é o dia em que o Gabriel, Senhor dos Vampiros, vai anunciar sua Rainha de Sangue?

— Quem é aquela criança?

— Ele o chamou de pai… será que é um filho ilegítimo?

Ao ouvir os murmúrios, Gabriel empurrou meu filho abruptamente.

— Do que você acabou de me chamar?

Meu menino cambaleou para trás e caiu no chão, paralisado de medo.

Chega.

Corri para ajudá-lo a se levantar, pronta para ir embora.

Mas Chloe bloqueou nosso caminho.

— Isabella. — Disse ela friamente, com um sorriso debochado nos lábios.

— Hoje é o dia em que Gabriel e eu completaremos nosso Vínculo de Sangue. Você está tentando causar problemas de propósito?

Tudo ficou claro.

A mensagem nos convidando provavelmente tinha sido obra dela.

Humilhação pura e simples.

Ela enlaçou o braço no de Gabriel.

— Eu te avisei. — Disse docemente. — Não importa o quanto você deseje o Senhor dos Vampiros, você não pode arrastar uma criança de rua para cá e dizer que é um filho dele.

— Não é verdade, Gabriel?

Gabriel evitou meu olhar.

Então assentiu.

Apertei meu filho soluçante contra mim e finalmente perdi a paciência.

— Meu filho não é uma criança de rua. Eu o dei à luz.

— E quanto ao pai dele... é um grande vampiro. Apenas não é o Senhor dos Vampiros deste Clã.

Ergui meu filho e me virei para ir embora.

Meu rosto explodia em dor..

Chloe havia me dado um tapa forte.

— Ainda tem coragem de retrucar? — Zombou ela.

— Você realmente é um lixo, uma parasita. Nós te acolhemos por misericórdia, e é assim que nos retribui, caluniando nosso Senhor dos Vampiros e desonrando nossa Casa?

— Batam nela.

Vampiros avançaram, me forçando ao chão.

Golpes começaram a cair sobre mim.

Com a visão turva, vi Gabriel parado ali, Chloe agarrada ao braço dele, o rosto dele contorcido em hesitação.

Naquele momento, perceb: Eu não lhe devia nada.

Nem pela vida que ele um dia salvou.

Nem pelo amor que um dia jurou.

Cada golpe apagava o pouco que ainda restava.

Meu filho gritava.

Ele agarrou a perna de Gabriel e caiu de joelhos com força.

— Tio, não, Senhor dos Vampiros. — Soluçou.

— Me desculpe. Por favor. Não deixe baterem mais na minha mãe.

Gabriel e eu congelamos ao mesmo tempo.

— Parem! — Gabriel gritou.

Ele encarou meu filho, a voz tensa.

— Como você me chamou agora?

— Senhor dos Vampiros Gabriel. — Respondeu meu filho baixinho.

— Se este lugar não quer a mim e à minha mãe, nós vamos embora.

Naquele instante, ele pareceu ter amadurecido.

Com os olhos vermelhos e inchados, ajudou-me a ficar de pé.

E, sob o olhar de todos, me conduziu para fora da propriedade.

Mais tarde, Gabriel me mandou mensagem: pediu que eu não ficasse com raiva, mandou eu voltar para casa e disse que viria naquela noite.

Meu filho ignorou.

Olhou para mim, contendo as lágrimas.

— Mamãe… você disse que o vovô e a vovó sentem nossa falta, não disse? Então vamos embora agora.

Olhei para ele. Ele parecia bem mais maduro do que antes. E eu assenti.

Naquela noite, queimei tudo o que ligava meu filho e eu àquele lugar.

E juntos, fomos embora.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 8

    Eu vi Gabriel novamente pela primeira vez na cerimônia que anunciava meu filho como herdeiro oficial. Como Senhor Vampiro do Coven Blazetooth, Gabriel não teve escolha a não ser abandonar sua busca obsessiva por nós e viajar para o norte para comparecer ao evento.Nos últimos anos, enquanto a Corte do Norte continuava a crescer em poder e prestígio, o Coven Blazetooth havia entrado em constante declínio. Sob o governo instável de Gabriel, a posição deles dentro da hierarquia vampírica caíra cada vez mais.Assim, quando sua mãe e seus parentes se ajoelharam em reverência durante a cerimônia — e ergueram a cabeça para ver meu filho e eu, vestidos em esplendor cerimonial — eles congelaram.Seus olhos se arregalaram em incredulidade.Gabriel, por outro lado, iluminou-se.O cansaço em seu rosto desapareceu enquanto ele avançava, agarrou meu pulso e gritou sem qualquer respeito ao protocolo:— Isabella! Finalmente te encontrei! Você não faz ideia do quanto senti sua falta nesses—Eu afa

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 7

    No momento em que Gabriel decidiu que pagaria qualquer preço para nos trazer de volta, meu filho e eu já havíamos chegado em segurança ao Norte.Quando meu pai — que eu não via já havia vários anos — colocou os olhos em nós, não disse uma única palavra de reprovação.Em vez disso, ele e minha mãe nos puxaram para seus braços, apertando-nos com tanta força que chegou a doer, lágrimas escorrendo livremente enquanto murmuravam repetidas vezes:— Vocês estão em casa. Finalmente estão em casa.Naquele momento, o poderoso e temido Rei Vampiro do Norte não era um governante lendário — era apenas um pai envelhecido, tremendo de alívio pelos filhos que temera ter perdido para sempre.Fui tomada por gratidão… e culpa.Quanto ao meu filho, que no início estava tímido e cauteloso diante de pessoas das quais mal se lembrava, ele logo se abriu sob o carinho dos avós.Não demorou muito para que a luz voltasse aos seus olhos.Tudo o que ele havia suportado o forçara a amadurecer cedo demais.Logo

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 6

    Gabriel trancou-se dentro do que um dia havia sido o quarto deles.Ele encarava as mensagens no celular — enviadas, entregues, sem resposta — até que o amanhecer começou a sangrar nas bordas da noite.— Ela vai voltar. — Sussurrou para o quarto vazio, agarrando-se à ideia como se fosse um feitiço. — Minha Isabella nunca me deixaria.Passos soaram do lado de fora da porta.Seu coração disparou.Ele se levantou num salto.Antes mesmo de abrir, sentiu aquele aroma familiar — baunilha suave, era o dela, inconfundível.— Isabella!Ele escancarou a porta e puxou a mulher que estava do lado de fora para seus braços, abraçando-a com uma força desesperada.— Eu sabia. — Murmurou, quase rindo. — Eu sabia que você não me deixaria.— Gabriel…A voz o congelou.No instante em que percebeu quem estava segurando, qualquer vestígio de alívio desapareceu de seu rosto.Chloe.O calor sumiu de sua expressão, substituído por uma fúria crua e mal contida.— Quem lhe deu permissão — rosnou ele

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 5

    Gabriel acordou ao anoitecer.A luz estava fraca, e as sombras se alongavam pelo quarto.Ele estava deitado na cama deles. O cobertor que o cobria ainda trazia o leve e familiar aroma de baunilha — o cheiro dela.E ao lado da cama havia uma figura esguia, com longos cabelos caindo pelas costas, torcendo um pano quente e úmido.Isabella…Seu coração disparou.Sem pensar, Gabriel estendeu o braço e puxou a mulher para seus braços.— Você voltou!Mas o perfume intenso de jasmim-da-noite o atingiu imediatamente.Seu corpo enrijeceu.— Gabriel… — Chloe soluçou contra seu peito. — Achei que você realmente fosse me abandonar, que não iria concluir o Vínculo de Sangue comigo!— Não se preocupe. — Continuou ela, apressada. — Eu já expulsei aquela mulher vampira. Se você gosta daqui, então eu fico — com a criança — e nós viveremos aqui juntos!Pela primeira vez, Gabriel percebeu o quanto o cheiro de Chloe era insuportável.Franziu a testa com força.A irritação cresceu até virar alg

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 4

    Antes de partir, enviei uma última mensagem a Gabriel.Ao Gabriel, Senhor dos Vampiros, meu filho e eu fomos embora.Desejo felicidade na sua nova vida.Adeus. Para sempre.Depois de apertar enviar, cancelei o número — e então afundei o telefone nas profundezas do lago, observando as ondulações engoli-lo por completo.Naquele exato momento, Gabriel ainda estava no meio do ritual do Vínculo de Sangue.Sem aviso, uma dor aguda apertou seu coração.Ele olhou para a mensagem na tela, e o pavor inundou sua mente num instante.Ligou para mim — uma vez, duas, repetidas vezes.Tudo o que recebeu foi o mesmo tom frio e mecânico.Desconectado.— Gabriel? O que houve? — Alguém sussurrou com urgência. — Os convidados estão olhando.Chloe percebeu a mudança nele e tentou fazê-lo seguir adiante, mas Gabriel de repente arrancou o anel da família do dedo e o lançou longe.Sem dizer mais nada, virou-se e correu em direção às portas da mansão.Um guarda entrou em seu caminho.— Saia da frent

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 3

    Meu filho não conseguia entender o que havia acontecido naquele dia.Ele apenas chorava em silêncio em meus braços.Com uma voz pequena e trêmula, ele perguntou se o pai não o queria mais e se eu era a única pessoa no mundo que ainda o amava.Eu o abracei com força.— Não. — Sussurrei. — Você, meu pequeno herói, é amado por muitas pessoas.— Seus avós sentem muito a nossa falta. Eles estão esperando para te conhecer. Você gostaria de ir embora com a mamãe para vê-los?Ele hesitou.Seus dedos apertaram com força o carrinho de brinquedo que Gabriel lhe dera no aniversário do ano anterior.— Mas… eu não quero deixar o papai.Engoli as lágrimas que queimavam na minha garganta e falei com suavidade:— Seu pai e sua avó não querem que fiquemos aqui. Você quer continuar chamando ele de "papai" quando ele quer que você o chame de "tio" pelo resto da vida?Ele congelou.Lentamente, deixou o brinquedo de lado, lágrimas escorrendo enquanto olhava para mim e suplicava:— …Então posso fi

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 1

    Deixei o Reino do Norte por causa de Gabriel Brown.Meu pai jamais acreditou que a linhagem de Gabriel fosse digna de estar ao meu lado.Eu era filha de um Rei Vampiro no reinado, a única herdeira da Casa Sterling —nascida para coroas antigas e legados reais, não para uma linhagem periférica à mar

  • Sangue do Verdadeiro Rei   Capítulo 2

    Reconectei-me com minha família quase sem esforço algum.Eles ficaram radiantes — especialmente meu pai.Quando soube que tinha um neto, o estoico Rei Vampiro quase foi às lágrimas. Ele insistiu para que eu retornasse imediatamente ao Norte, para levar meu filho de volta ao lugar ao qual pertencía

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status