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Capítulo 2

Author: Mora Quintela
As marcas dos cinco dedos apareceram depressa no rosto de Carolina.

Ela arregalou os olhos, incrédula, e levou a mão à bochecha ardida. Só depois de alguns segundos pareceu entender o que acabara de acontecer.

— Você... Você teve coragem de me bater?

Carolina ergueu a mão para revidar, mas Bianca foi mais rápida. Segurou o pulso dela com firmeza e, no instante seguinte, virou a mão e lhe acertou outro tapa.

"Pá!"

A cabeça de Carolina virou para o lado com a força do golpe. Os cachos, antes cuidadosamente arrumados, se espalharam pelo rosto.

Ela continuou de olhos arregalados, como se ainda não conseguisse acreditar que havia levado dois tapas seguidos.

A sala reservada inteira caiu em silêncio.

Todos os olhares estavam cravados nas duas.

Eduardo foi o primeiro a reagir, mas permaneceu imóvel, com as pupilas se contraindo de repente.

Ela voltou a ouvir?

O coração de Eduardo falhou por um instante. Seu olhar se desviou por instinto e acabou pousando no bar do outro lado da sala.

A porta escura e espelhada do armário refletia a luz amarelada das arandelas, misturando sombra e brilho.

Então era o espelho...

Ele soltou o ar em silêncio. Ainda nem tivera tempo de entender aquela sensação estranha de que algo não se encaixava quando Carolina explodiu, fora de si:

— Sua vadia! Eu vou acabar com você!

Dizendo isso, avançou sobre Bianca de uma vez, com as unhas mirando direto em seu rosto.

As mãos das duas se enroscaram no ar. Uma puxava, a outra empurrava, disputando força.

Bianca reagiu rápido. Agarrou os cabelos longos de Carolina com força, fazendo-a gritar de dor.

— Chega!

Eduardo soltou um grito furioso e avançou em passos largos. Separou as duas de uma vez, colocou o braço entre elas e agarrou o pulso de Bianca.

— Parem com isso, vocês...

Mas Carolina aproveitou a brecha e ergueu a mão.

O coração de Bianca se apertou. Ela tentou se livrar da mão de Eduardo.

Só que os dedos dele apertavam seu pulso com força demais, e ela não conseguiu se soltar a tempo.

Bianca abriu a boca, querendo mandá-lo largá-la, mas o que saiu foi apenas um sopro rouco.

A febre alta da noite anterior havia devolvido sua audição.

Mas também lhe tirara a voz.

Sua garganta estava tão inflamada que ela não conseguia emitir uma única palavra.

Naquele instante, Bianca estava desesperada, mas não conseguia dizer nada.

Eduardo percebeu sua luta e hesitou por um segundo.

Foi nesse breve instante de distração que Carolina desceu a mão contra ela.

Bianca desviou por reflexo. Conseguiu evitar o tapa, mas as unhas afiadas ainda passaram por sua bochecha, abrindo uma ardência cortante.

Ao ver o risco de sangue no rosto de Bianca, Eduardo ficou atordoado por um segundo. Logo depois, empurrou Carolina com força e explodiu, tomado pela raiva:

— Carolina, o que você está fazendo?

Carolina foi lançada para trás sem conseguir se firmar. Cambaleou alguns passos e bateu o ombro com violência no bar atrás dela.

Um estrondo alto ecoou pela sala.

O armário de bebidas balançou com força. As garrafas caras expostas ali se inclinaram e começaram a deslizar. O líquido espirrou pelo ar enquanto as garrafas pesadas despencavam uma após a outra, caindo direto sobre ela.

— Cuidado!

Em meio aos gritos, Eduardo se lançou sobre Carolina e cobriu o corpo dela com o próprio.

As garrafas bateram contra suas costas com sons abafados, enquanto estilhaços de vidro se espalhavam por todos os lados.

Ao lado, Bianca só teve tempo de erguer o braço para proteger a cabeça e o rosto antes que uma garrafa atingisse sua escápula com violência.

A dor explodiu no mesmo instante.

Logo depois, outras garrafas caíram sobre ela uma após a outra.

Um gemido sufocado escapou de sua garganta.

A força do impacto a jogou no chão. Cacos de vidro e bebida gelada se espalharam por seu corpo. O sangue começou a escorrer de sua têmpora, misturando-se ao álcool e descendo em um filete torto pelo rosto.

Bianca ficou encolhida no chão, sentindo metade do corpo perder a sensibilidade. Uma dor surda e intensa se espalhava pelo ombro, pelas costas e pela nuca. Em seus ouvidos, havia apenas um zumbido confuso, misturado aos gritos das pessoas ao redor.

— Edu! — As lágrimas de Carolina brotaram imediatamente. — Meu pé está doendo muito...

Eduardo se ergueu depressa de cima dela, ignorando a dor nas próprias costas.

— Onde machucou? Deixa eu ver.

— No tornozelo... Está doendo muito...

Carolina falava entre lágrimas.

Os cacos de vidro haviam cortado seu tornozelo, deixando algumas marcas de sangue. Não parecia nada grave, mas ela chorava como se tivesse sido ferida de maneira terrível.

Enquanto isso, Bianca tentava se apoiar no chão, mas tudo diante de seus olhos escurecia em ondas.

Ela tentou mover o braço esquerdo. Os dedos tremiam enquanto se estendiam na direção de Eduardo. Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu.

Eduardo já havia tomado Carolina nos braços e se virado para sair.

— Edu! A Bia também parece estar machucada...

Alguém não conseguiu se conter e apontou para Bianca, encolhida no chão.

Os passos de Eduardo pararam por um instante.

Ele olhou para trás às pressas.

Mas Carolina, em seus braços, soluçou e escondeu o rosto na curva do pescoço dele.

— Edu, está doendo muito... Será que pegou no osso?

Eduardo desviou o olhar. Com a testa franzida, disse:

— Cuidem da Bia para mim. Se não for nada grave, levem ela para casa. Eu vou levar a Carol ao hospital primeiro para examinarem. Ela não suporta dor.

A pessoa ficou paralisada por um segundo. Abriu a boca, mas, no fim, apenas respondeu:

— Tá...

Eduardo não ficou nem mais um instante. Com Carolina nos braços, saiu da sala reservada a passos largos.

Os amigos trocaram olhares constrangidos.

Ao verem Bianca ainda caída no chão, alguns pareceram querer se aproximar, mas hesitaram.

— Bianca, como você está? Consegue se levantar?

— Você é idiota? Ela é surda. Não está ouvindo. Você sabe Libras?

— Porra, claro que não.

Naquele momento, a visão de Bianca já estava turva. As vozes ao redor pareciam vir de muito longe, separadas dela por uma espessa camada de gelo.

Ela via as bocas das pessoas se abrindo e se fechando diante dela, mas já não conseguia distinguir o que diziam.

O sangue em sua testa escorria cada vez mais. Quando entrou em seus olhos, o mundo inteiro se tingiu de um vermelho escuro.

Bianca quis balançar a cabeça, mas nem força para isso tinha.

Sentia frio.

Um frio que parecia nascer entre os ossos.

As imagens ao redor começaram a girar e se distorcer. As silhuetas se multiplicavam diante dela.

De repente, alguém gritou:

— Porra... A cabeça dela está sangrando! Tem muito sangue!

As vozes chegavam aos ouvidos de Bianca ora perto, ora longe.

Sombras desciam sobre ela em camadas, densas como uma tinta impossível de dissolver. Suas pálpebras ficaram cada vez mais pesadas.

— Chamem uma ambulância, rápido!

— O Edu é foda... Por que ele não atende o telefone?

Bianca acordou por causa da dor.

Quando abriu os olhos, tudo diante dela era de um branco agressivo.

O cheiro de desinfetante invadiu suas narinas.

Ela moveu os dedos, e o simples gesto puxou o ombro, provocando uma dor surda.

Sua testa estava enfaixada. O braço esquerdo havia sido imobilizado. Na parte de trás da cabeça, a dor latejava sem parar.

O quarto estava silencioso. Só se ouvia o som regular dos aparelhos.

Bianca virou a cabeça e olhou pela janela.

O céu estava acinzentado. Era impossível saber se ainda era começo da manhã ou se o dia já se aproximava do fim.

A porta se abriu.

Um homem jovem, usando jaleco branco, entrou no quarto. Era alto e magro, de postura fria e reservada. Sobre o nariz, usava óculos de armação fina dourada.

— Acordou?

Ele se aproximou da cama, pegou o prontuário preso aos pés do leito, folheou algumas páginas e depois conferiu os dados no monitor.

— Como está se sentindo?

Dr. Felipe Pereira...

Bianca claramente não esperava ter sido levada justamente para o hospital onde Felipe trabalhava.

Nos últimos seis meses, fora ele quem acompanhara seu tratamento de reabilitação auditiva. E, em grande parte graças a ele, ela finalmente havia recuperado a audição.

Ela abriu a boca, mas só conseguiu soltar um sopro rouco pela garganta.

Felipe ergueu a mão, interrompendo-a.

— Não fale. Suas cordas vocais não têm nada grave. É só uma laringite aguda causada pela febre alta. Com alguns dias de repouso, melhora.

Ele tirou uma caneta e um bloquinho do bolso e entregou a ela.

Bianca pegou os dois, abaixou os olhos e escreveu algumas palavras:

[Obrigada, Dr. Felipe, por ter curado meus ouvidos.]

Felipe leu, sorriu de leve e lhe devolveu o bloquinho. Quando falou, havia algo significativo em seu tom:

— Não precisa me agradecer. Eu só aceitei um pedido. Se eu não conseguisse curar você, certa pessoa não me deixaria voltar para Porto Nobre.

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