LOGIN— Senhora Ferraz... — A voz do homem veio baixa e rouca, com um riso preguiçoso escondido no fundo. — Fazer esse tipo de convite em plena luz do dia... Será que pega bem?Bianca piscou, sem entender de imediato."Hã?"O que havia de errado com aquela frase?— Para você, eu tenho tempo a qualquer hora, em qualquer lugar.As pontas das orelhas de Bianca esquentaram antes que ela conseguisse se controlar.Como ele podia ser assim?Mal estava em condições de dar conta de si mesmo e ainda adorava provocá-la...— Eu... Eu marquei com o doutor.Com medo de que ele dissesse mais alguma coisa capaz de fazê-la perder o rumo, ela se apressou em explicar:— Hoje, às seis da tarde, naquele restaurante onde você me levou da outra vez. Pode ser?— Você decide, senhora Ferraz.— Então está combinado.O restaurante ficava escondido numa ruazinha tranquila do Jardim Serena, em Porto Nobre. Por fora, não chamava atenção, mas bastava atravessar a porta para descobrir outro mundo ali dentro.Depois de cont
Os dois ainda trocaram algumas provocações antes de o assunto mudar.Antônio apagou o cigarro no cinzeiro, recostou-se no sofá e cruzou as pernas.— Ah, vocês ficaram sabendo? Henrique se machucou ontem.A mão de Cristiano, que segurava o copo, parou por um instante.— Se machucou? Como?Antônio deu de ombros.— Não sei. A notícia já correu por aí. Dizem que o herdeiro mais velho da família Ferraz foi atacado, teve a mão atravessada por uma lâmina e ainda está internado.— Esse desgraçado sabe mesmo se fazer de vítima. Nem tentou abafar a história. Pelo contrário, deixou todo mundo comentar à vontade.Otávio ergueu os olhos e lançou a ele um olhar frio.Antônio sentiu um arrepio subir pela nuca.— Otávio, por que está me olhando assim? Não fui eu que fiz isso.A voz de Otávio saiu indiferente.— Fui eu.O camarote caiu num silêncio pesado.Antônio ficou boquiaberto. Só percebeu que o cigarro havia caído sobre sua calça e queimado um pequeno buraco no tecido quando sentiu o calor. Levan
Guilherme baixou os olhos. O canto de seus lábios se ergueu de leve, mas aquele sorriso não levou nenhum calor ao olhar.— A família Azevedo de Porto Nobre, do ramo de materiais de construção?Jorge assentiu no mesmo instante.— Isso mesmo. Essa família Azevedo.Guilherme não disse mais nada.Seu olhar voltou para a figura esguia do outro lado do vidro. Por um breve instante, algo se adensou em sua expressão, mas logo desapareceu sem deixar rastro.Então era por isso que ele a havia encontrado ali no dia anterior.Ela era a noiva do Otávio...Jorge continuou parado ao lado, já com as pernas dormentes, mas não ousou abrir a boca. Só pôde esperar em silêncio.Depois de um longo tempo, Guilherme enfim desviou os olhos, pegou a xícara de café sobre a mesa de centro e tomou um gole sem pressa.— Pode ser esse.Jorge sentiu como se finalmente pudesse voltar a respirar.— Sim, senhor. Vou pedir para iniciarem a produção agora mesmo.Ele se virou e caminhou para fora. Ao chegar à porta, não re
Bianca guardou o celular e respondeu com naturalidade:— Mais ou menos.Mais ou menos?O canto da boca de Heitor se contraiu.Que tom era aquele?Ela fazia ideia do que significava ter ouvido absoluto?Era um talento raríssimo. Mesmo no meio musical, dava para contar nos dedos os cantores que possuíam essa habilidade. E, entre os que possuíam, nem todos seriam capazes de identificar uma falha com aquele nível de precisão.Aquilo já não podia ser explicado apenas por talento. Exigia anos de treino duro, repetitivo, quase cruel.E uma pessoa assim tinha aceitado entrar na Lumina para trabalhar como agente?Heitor voltou a olhar para Bianca.Será que aquilo tinha sido arranjado pelo irmão mais velho?Deixa pra lá.De qualquer forma, naquele fim de semana, o irmão voltaria trazendo Larissa. Quando chegasse a hora, ele perguntaria tudo com calma.Enquanto isso, no camarote VIP do segundo andar, uma parede inteira de vidro espelhado oferecia uma visão ampla do estúdio no piso inferior.De de
Depois do café da manhã, Bianca foi direto para a empresa. De lá, seguiu de carro com Heitor até o local de gravação de Super Nova Voz.Quando chegaram, a entrada já estava cercada por jornalistas de vários veículos e por fãs. A multidão tomava quase toda a passagem, e os seguranças precisavam manter os braços entrelaçados, formando uma barreira humana para preservar alguma ordem.Heitor não havia passado pela maquiagem naquele dia. Estava de rosto limpo, com o boné puxado bem baixo, deixando visível apenas a linha firme do maxilar.Ainda assim, chamava atenção demais. Bastou ele aparecer para um grupo de fãs levar as mãos à boca e começar a gritar.— Heitor! Heitor!— Heitor, seu lindo! Eu te amo!Heitor nem mudou de expressão. Abriu a porta do carro, desceu e entrou no prédio a passos largos.Bianca foi logo atrás, acompanhada por um funcionário até o estúdio.O auditório era muito maior do que ela havia imaginado.O palco ocupava uma parede inteira. Luz, som, cenografia, banda, equi
Otávio se agarrava a Bianca com o desespero de quem estava se afogando e, no último instante, conseguira alcançar uma pedra firme na margem. Como se, ao soltá-la, fosse afundar outra vez.Bianca quase perdeu o ar com a força daquele abraço, mas não tentou se afastar.Apenas repetiu o gesto que ele usara para acalmá-la naquele dia, deslizando a mão devagar pelas costas dele.Uma vez.Duas.Três...O tempo foi passando, segundo após segundo.Bianca não soube dizer quanto tempo levou até os tremores de Otávio começarem, enfim, a diminuir.A respiração dele foi se estabilizando aos poucos, e os batimentos também retomaram o ritmo normal. Ainda assim, os braços permaneceram firmes ao redor da cintura dela, sem qualquer intenção de soltá-la.— Eu assustei você?A voz dele ainda estava rouca, muito perto do ouvido dela.Bianca balançou a cabeça.— Não.Otávio a apertou um pouco mais, trazendo-a ainda mais para perto.Depois, baixou o rosto, encostou a ponta do nariz nos cabelos dela e respiro
Um pedido?De Eduardo?A ponta da caneta de Bianca parou sobre o papel.Durante aquele ano, ela vira com os próprios olhos Eduardo correr de um lado para o outro por ela, atrás de médicos, especialistas, tratamentos. Nada, porém, havia dado resultado de verdade.Até que, seis meses antes, Felipe ass
Enquanto Bianca ainda tentava conter a inquietação que lhe apertava o peito, Otávio desviou o olhar e recostou-se no banco de couro. O pomo de adão se moveu de leve.— Entre no carro.Só então o coração de Bianca pareceu se acalmar um pouco. Ela se inclinou e entrou.A porta se fechou, isolando do l
Naquele momento, Bianca acabara de chegar ao aeroporto de Santa Vitória quando o celular vibrou.— Alô, Murilo?Do outro lado da linha, veio a voz suave de Murilo Barbosa, acompanhada de uma risada meio resignada.— Bia, a Aurora Entretenimento, do Grupo Medeiros, acabou de me ligar. Disseram que o
Dois dias depois, os ferimentos de Bianca já haviam melhorado bastante, e sua voz também voltara ao normal.Durante todo esse tempo, Eduardo não apareceu para visitá-la nem uma única vez.Em compensação, ela recebeu um pacote enviado pela mãe, de Porto Nobre.Dentro dele, estava o documento de ident







