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Capítulo 3

Author: Mora Quintela
Um pedido?

De Eduardo?

A ponta da caneta de Bianca parou sobre o papel.

Durante aquele ano, ela vira com os próprios olhos Eduardo correr de um lado para o outro por ela, atrás de médicos, especialistas, tratamentos. Nada, porém, havia dado resultado de verdade.

Até que, seis meses antes, Felipe assumira seu caso.

Depois disso, sua audição começara a melhorar pouco a pouco.

Mas, por algum motivo, Bianca sentia que havia algo estranho naquela história.

Eduardo e o Dr. Felipe eram tão próximos assim?

Então por que, em todas as vezes em que ela fora ao hospital fazer exames, Felipe nunca dera a Eduardo sequer um olhar minimamente simpático?

Ela ergueu os olhos para Felipe, com a pergunta estampada no olhar.

Felipe, no entanto, não continuou o assunto.

— Certo. Não vou atrapalhar seu descanso. Cuide bem desses ferimentos.

[Obrigada, Dr. Felipe.]

A porta se fechou.

O quarto voltou ao silêncio.

De repente, o celular ao lado do travesseiro vibrou algumas vezes.

Bianca pegou o aparelho e olhou a tela. A maioria das mensagens era de sua mãe. Todas diziam quase a mesma coisa: perguntavam se ela já havia comprado a passagem, quando voltaria para Porto Nobre...

Bianca conferiu o horário.

A primeira havia chegado às três da madrugada.

A mais recente, às sete da manhã.

Ela digitou uma resposta:

[Mãe, aconteceu um imprevisto por aqui. Volto daqui a dois dias.]

Assim que enviou, o celular vibrou de novo.

A mensagem mais recente era de Eduardo, pelo WhatsApp:

[Bia, você se machucou muito ontem à noite? Daqui a pouco passo aí. Quer comer alguma coisa? Eu levo pra você.]

Bianca ficou olhando para aquelas palavras por alguns segundos. Então, abriu a conversa e digitou apenas uma frase:

[Eduardo, vamos terminar.]

Depois de enviar, bloqueou o número e apagou a conversa de uma vez, sem hesitar.

Então virou o celular sobre o lençol, fechou os olhos e manteve uma expressão calma, como se nada tivesse acontecido.

Enquanto isso, no trânsito pesado da manhã, uma Mercedes preta avançava devagar atrás do carro da frente.

O celular sobre o console central vibrou.

Eduardo estava no banco do motorista, com uma das mãos no volante. Com a outra, pegou o telefone.

Quando leu a mensagem na tela, suas sobrancelhas se franziram.

Nesse instante de distração, as luzes de freio do carro à frente se acenderam de repente. Eduardo voltou a si num sobressalto e pisou fundo no freio.

"Iiiiiih!"

O som agudo dos pneus cortou o ar. O carro deu um tranco brusco, e o homem no banco do passageiro foi puxado pelo cinto de segurança, soltando um gemido abafado. O café em sua mão quase derramou.

— Porra, Edu! O que foi isso? Tá maluco? Onde é que você estava com a cabeça?

Ele conseguiu se firmar no banco e virou o rosto para Eduardo, irritado.

Eduardo não respondeu. Continuou apenas encarando a tela do celular, com as sobrancelhas ainda mais franzidas.

O passageiro era Gabriel Rocha, amigo de infância de Eduardo e também presente na sala reservada na noite anterior.

Ao vê-lo daquele jeito, Gabriel não conseguiu evitar a pergunta:

— O que foi? Mensagem da Bianca?

Eduardo não disse nada. Apenas jogou o celular de volta no console central e ligou o carro outra vez.

Como ele não negou, Gabriel entendeu que havia acertado. Recostou-se no banco e soltou um suspiro.

— Olha, Edu, não dá para culpar a Bianca por estar chateada. Depois do que aconteceu ontem à noite, qualquer pessoa ficaria mal.

A mão de Eduardo apertou o volante por um instante, mas ele continuou calado.

Gabriel prosseguiu:

— Mas também não precisa se desesperar. A Bia tem o coração mole e é louca por você. Daqui a pouco você passa no hospital, leva umas flores, fala meia dúzia de coisas bonitas... E pronto. Ela perdoa.

Eduardo permaneceu em silêncio.

Gabriel não percebeu a estranheza no comportamento dele e continuou falando sozinho:

— Pensando bem, dá até pena da Bianca. Ela saiu de Porto Nobre sozinha por sua causa, veio para Santa Vitória sem conhecer ninguém, sem família por perto, e ainda estava sem ouvir. Quando era maltratada, só podia engolir tudo calada. A Carol não pegava leve com ela naquela época, né? Mesmo assim, a Bianca aguentou. Sabe por quê? Porque te ama. Mulher apaixonada assim é fácil de dobrar.

— Ela falou em terminar.

Eduardo disse de repente.

— O quê?

Gabriel virou o rosto para ele, como se não acreditasse no que tinha ouvido.

Eduardo manteve os olhos no trânsito à frente. Seu pomo de adão se moveu antes que ele repetisse:

— Ela me mandou uma mensagem dizendo que quer terminar.

— Terminar?

Gabriel ficou atordoado por um segundo. Depois, soltou uma risada.

— Edu, para de brincadeira. A Bianca terminar com você? Impossível. Ela é completamente apaixonada por você. Naquela época, mesmo depois de tudo que a Carol fez, ela engoliu tudo e ficou. Agora vai terminar por causa de uma coisa dessas? Não dá. Ela não consegue.

Eduardo não respondeu.

Gabriel deu alguns tapinhas no ombro dele.

— Fica tranquilo. Ela só está magoada, fazendo birra porque ficou com raiva. Daqui a pouco você vai ao hospital, conversa com calma, agrada um pouco, e tudo se resolve.

Fez uma pausa e acrescentou:

— Afinal, ela é surda, está sozinha em Santa Vitória, sem família, sem ninguém. Além de você, em quem ela poderia se apoiar?

Eduardo continuou calado.

Apenas manteve o olhar fixo no fluxo de carros à frente. Por um instante, algo passou pelo fundo de seus olhos, rápido demais para ser compreendido.

Meia hora depois, o carro parou em frente ao hospital.

Eduardo soltou o cinto de segurança e já ia abrir a porta quando uma figura vestida de vermelho surgiu de repente ao lado do carro e bloqueou sua saída.

— Edu!

Carolina estava parada do lado de fora, com a maquiagem impecável.

Usava um suéter largo de tricô com uma saia curta, deixando boa parte das pernas à mostra. O tornozelo envolto em gaze completava aquela aparência frágil, cuidadosamente montada para despertar pena.

— O que você está fazendo aqui fora? — Eduardo franziu a testa. — Seu pé não está doendo?

— Está...

Carolina mordeu o lábio e mal começou a falar quando o celular em seu bolso vibrou de repente.

Ao ver o nome na tela, ergueu os olhos em pânico.

— É o papai! E agora? Ele com certeza vai brigar comigo de novo. Edu, atende por mim...

A expressão de Eduardo ficou ainda mais fechada. Mesmo assim, ele pegou o celular, atendeu a ligação e levou o aparelho ao ouvido.

— Alô, pai...

— Edu? — Do outro lado da linha, houve uma breve pausa. Em seguida, a voz de Lucas soou mais grave. — Cadê a Carol? Como está o ferimento dela?

Eduardo apertou os lábios. Não esperava que o pai tivesse recebido a notícia tão rápido.

— Ela está bem. Foi só um machucado superficial. Nada grave.

— Melhor assim.

Lucas fez uma pausa. Quando voltou a falar, sua voz ficou mais pesada.

— Fiquei sabendo do que aconteceu ontem à noite. Foi a Bianca que empurrou a Carol? E ainda deu dois tapas nela?

A mão de Eduardo se fechou com mais força em torno do celular.

— Pai, não foi bem assim...

— Eu não quero saber. — Lucas o interrompeu. — A Carol é sua irmã. Seu tio Pedro salvou minha vida naquela época. Ele só deixou a Carol neste mundo. Você não tem o direito de maltratar essa menina.

Ao ouvir o pai repetir aquele velho discurso, Eduardo franziu levemente a testa. Um traço de impaciência surgiu em seu rosto.

— E tem mais. A Carol finalmente voltou para o Brasil. Pare de ficar levando a menina de um lado para o outro e traga-a logo para casa. Eu e sua mãe estamos com saudade dela.

Eduardo abriu a boca, prestes a dizer alguma coisa, mas a ligação já havia sido encerrada.

Ele ficou encarando a tela do celular, o cenho fechado, como se tentasse conter a irritação que subia aos poucos.

Carolina puxou de leve a manga dele.

— Edu, não fica bravo comigo, tá? Eu sei que errei...

Ao ver que Eduardo continuava com a expressão fechada, ela se apressou em erguer três dedos.

— Eu prometo que, daqui pra frente, vou te obedecer direitinho. O que você mandar eu fazer, eu faço.

Eduardo apertou os lábios e disse, em voz baixa e firme:

— Não volte a maltratar a Bia. Ela vai ser sua cunhada.

Carolina fez um biquinho. Logo depois, abriu um sorriso doce, enlaçou o braço dele e mudou de assunto:

— Papai e mamãe estão com saudade de mim, não estão? Vamos para casa, tá?

Eduardo olhou na direção do hospital.

Então se lembrou da mensagem que Bianca havia mandado mais cedo, falando em terminar.

Deixa pra lá.

Era melhor deixá-la esfriar a cabeça primeiro.

Assim, ela pararia de fazer birra com ele.

Com esse pensamento, Eduardo respirou fundo, devolveu o celular a Carolina e disse:

— Vamos.

Os olhos de Carolina brilharam. Ela logo assumiu uma expressão dócil e o seguiu até o carro.

A porta se fechou.

Eduardo baixou os olhos e enviou uma mensagem:

[Bia, meu pai me chamou para resolver uma coisa urgente. Passo aí mais tarde para te ver. Descansa.]

Depois de apertar enviar, guardou o celular no bolso. Nem percebeu que a mensagem nunca passaria daquele único risquinho cinza.

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