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Capítulo 2

Author: Samuel Felino
Mudei-me para um pequeno apartamento de solteira.

O aluguel mensal era de seiscentos reais. O colchão era fino, e as paredes eram ainda mais.

Todas as noites, o cheiro da comida preparada no andar de baixo entrava pela janela.

Sob a luz da lua, minha mão tocou inconscientemente minha barriga ainda plana.

O que crescia ali não era apenas meu filho, mas também a única chave para herdar o império da família Moreira.

Pedro havia desistido dele e também cortado o único caminho que tinha para subir na vida.

Meu celular vibrou de repente. Era Pedro ligando.

Por um instante, pensei em deixar tocar até parar, mas no fim atendi.

— Você ainda tem um cartão da empresa no seu nome. — Ele foi direto ao ponto. — Precisa cancelá-lo.

A voz dele continuava a mesma de sempre: calma, controlada e objetiva.

Quem ouvisse aquela conversa provavelmente pensaria que éramos apenas colegas resolvendo os últimos detalhes de trabalho.

E não um casal cujo casamento havia acabado há menos de vinte e quatro horas.

— Vou resolver isso amanhã.

— Tudo bem.

Quando eu estava prestes a desligar a ligação, ouvi outra voz vindo do outro lado.

— Ela ainda tem um cartão de acesso, não tem?

Era Bianca.

Depois de um breve silêncio, Pedro respondeu:

— Traga esse também.

— Tem mais alguma coisa?

— Por enquanto, é só isso.

A ligação terminou.

Fiquei olhando para a tela por um longo tempo antes de abrir nosso histórico de conversa.

A tela estava cheia de registros dos nossos três anos juntos: atualizações sobre o trabalho, listas de compras, mensagens de bom dia, avisos durante a madrugada...

Milhares de mensagens que um dia pareceram extremamente importantes.

A primeira mensagem ainda estava lá.

"Srta. Helena, obrigado pela sua ajuda hoje."

Lembrei imediatamente daquele dia.

Naquela época, estávamos negociando com um cliente durante um jantar. De repente, o cliente exigiu um desconto maior e chegou a ameaçar desistir do negócio.

Pedro estava em desvantagem, com uma expressão péssima.

Foi eu quem revisei o contrato em segredo, encontrei algumas cláusulas que poderiam devolver a ele o controle da negociação e, no fim, fechamos o acordo naquela mesma tarde.

O que Pedro não sabia era que aquele cliente já conhecia minha identidade como uma das herdeiras da Família Moreira.

Eu deixei que ele acreditasse que eu apenas fazia bicos em uma mercearia do bairro, ganhando o suficiente apenas para cobrir minhas próprias despesas.

Uma versão de mim assim era muito mais fácil de aceitar para ele.

Na manhã seguinte, a mãe de Pedro me ligou.

A primeira coisa que ela perguntou não foi se eu estava bem, nem se eu tinha conseguido me acomodar depois do divórcio ou se precisava de alguma coisa.

— Você já arrumou suas coisas?

Olhei ao redor daquele apartamento pequeno e soltei uma risada amarga.

— Quase tudo.

— Ótimo. Então não leve aquelas roupas velhas. Bianca viu e disse que, para começo de conversa, você nem tinha nada que prestasse.

Não havia maldade em seu tom. Ela falava como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Então acrescentou: — Ah, e a Bianca quer a receita do molho à bolonhesa que você fazia antes.

Durante três anos inteiros, eu fazia aquele molho quase todos os fins de semana.

Pedro costumava comer no café da manhã acompanhado dele. Por isso, sempre que o estoque estava acabando, eu fazia mais alguns potes sem nem perceber.

Mas a mãe dele nunca havia me elogiado nem uma vez.

— Não.

A resposta pareceu surpreendê-la.

— Como assim, não?

— Quero dizer que Bianca não vai conseguir essa receita.

A gentileza em sua voz desapareceu instantaneamente.

— Helena, você está sendo infantil.

Encostei-me na parede e ouvi em silêncio enquanto ela enumerava todas as "vantagens" de Bianca.

A família dela era melhor, sua formação era superior, ela conseguia se encaixar naturalmente no mundo de Pedro e, por isso, era mais adequada para ele.

Depois de ouvi-la terminar, senti que ela havia guardado aquelas palavras por muito tempo, apenas esperando uma oportunidade para finalmente dizê-las.

Mas no mês passado, a empresa de Pedro quase teve o fluxo de caixa interrompido porque um parceiro cancelou o acordo de última hora.

Ele passou dias procurando lugares para conseguir dinheiro emprestado, ficou completamente sobrecarregado e quase vendeu a casa onde sua mãe morava.

Fui eu quem usou os contatos da minha família e fez uma ligação. Em menos de quarenta e oito horas, o problema das dívidas foi resolvido.

Naquela noite, Pedro voltou para casa sorrindo e me abraçou com força.

— Parece que a sorte finalmente chegou para nós. — Disse ele.

Ele não sabia que a chamada "sorte" só existia porque sua esposa tinha o sobrenome Moreira.

— Sra. Teresa. — Falei ao telefone. — Não posso entregar essa receita para a senhora. Tem mais alguma coisa?

Ela desligou a ligação furiosa.

Meia hora depois, recebi uma mensagem de Pedro:

"Minha mãe disse que você foi muito mal-educada agora há pouco. Nós já terminamos. Não torne as coisas mais desagradáveis do que precisam ser."

Eu não respondi. Coloquei o celular virado para baixo sobre o colchão e apoiei a palma da mão sobre minha barriga.

Alguns meses depois, a notícia da minha gravidez deixaria de ser segredo.

Naquele momento, eu voltaria para a família Moreira, de onde havia partido anos atrás.

Lá estavam minhas responsabilidades, minhas esperanças e uma enorme herança capaz de transformar completamente uma indústria.

A empresa da qual Pedro tanto se orgulhava parecia insignificante comparada a tudo isso.

Naquela tarde, fui fazer meu primeiro exame pré-natal.

A sala de espera estava cheia e barulhenta. Havia uma televisão ligada no canto, enquanto as enfermeiras chamavam os nomes dos pacientes no balcão.

Assim que terminei de preencher o formulário, meu celular tocou novamente.

Dessa vez, era Bianca ligando pelo celular de Pedro.

— Oi, Helena. — A voz dela era alegre. — Desculpe incomodar. Encontrei um frasco de ácido fólico no armário do banheiro.

Apertei o celular com força.

Ela fez uma pausa antes de continuar:

— Não tenho certeza se era seu ou se alguém deixou lá.

Por um momento, fiquei sem palavras.

Aquele frasco de ácido fólico...

Como eu poderia ter esquecido?

Desde que começamos a tentar ter um filho, eu tomava aquilo todos os dias.

Eu guardava o frasco na gaveta da mesa de cabeceira, junto com as vitaminas pré-natais e os testes de ovulação. Eu coloquei as vitaminas na mala, mas deixei o ácido fólico para trás.

Segurei o celular com força.

— Jogue fora. — Finalmente respondi. — Já passou da validade.

— Tudo bem. Ah, e Pedro me pediu para avisar você sobre o cartão de crédito da empresa. Quando você pretende cancelá-lo?

— Amanhã.

— Ótimo, obrigada.

A ligação terminou.

Baixei lentamente o celular e fiquei olhando para a tela escura.

Bianca era uma pessoa inteligente e perspicaz. E ela havia encontrado meu ácido fólico...

— Será que ela vai descobrir? — Murmurei para mim mesma.

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